FELIZ 2017 LAGO PARANOÁ

December 31, 2016 in Principal, Sobre o Lago Paranoá

Guilherme Scartezini

Se não fosse o Lago Paranoá não sei onde estaria hoje. Entre outras coisas aprendi com as suas águas que não é preciso lutar contra todos os inimigos, pode-se contorna-los respeitando as diferenças e seguir adiante com nossas convicções. Por esse e tantos outros motivos, foi triste saber através das CIANOBACTÉRIAS como temos tratado mal suas águas.

Segundo relatório publicado pela Agência Reguladora de Águas, Energia e Saneamento Básico do Distrito Federal (Adasa) em 22/12/2016: “Conclui-se que a proliferação de cianobactérias no Lago Paranoá não está vinculada a um único fator, mas à combinação de diversos fatores naturais e provocados pelas ações humanas, e que estão intimamente relacionados com o uso e ocupação que são feitos do solo em toda a bacia do Paranoá, há muitos anos, tais como ocupações irregulares, desmatamento, impermeabilização do solo, lançamento de esgotos tratados e não tratados”

O lixo e o esgoto rico em micro-organismos e fósforo que é jogado nas ruas ou lançado clandestinamente nas galerias de águas pluviais, com o início das chuvas desce por elas até o Lago Paranoá e essa porcaria toda alimenta as cianobactérias que se espalharam por mais de 5km do Lago Sul, podendo causar problemas ambientais e de saúde pública.

Segundo especialistas existem cerca de 2.000 espécies de cianobactérias e mais de 40 delas produzem cianotoxinas, que podem causar efeitos neurológicos, dermatológicos e hepatotóxico.

Embora o aumento das cianobactérias na água possa ocorrer de forma natural esse não foi o caso da poluição do lago em dezembro de 2016. Em plena capital onde vários órgãos públicos e nós mesmos deveríamos cuidar da nossa água, que para nós é vida, o lançamento de lixo, esgotos domésticos, industriais e agrícola, provocaram um fenômeno chamado eutrofização.

A eutrofização acontece quando a água recebe grande quantidade de nitrogênio e fósforo levando a redução do oxigênio e a morte de peixes. A eutrofização causou a floração, ou o aumento descontrolado de cianobactérias na água.

Ao tornarem a água mais turva as cianobactérias provocam um processo de desoxigenação e a produção de substâncias altamente tóxicas que alteram a cor e o gosto da água. Essas toxinas podem levar a morte rápida de animais por parada respiratória ao ingerirem essa água contaminada.

As cianobactérias também podem causar sérios problemas de saúde pública, como o que ocorreu em Pernambuco em 1996, quando 60 pacientes de uma clínica de hemodiálise morreram após apresentarem um quadro de intoxicação no fígado. A investigação concluiu que as mortes ocorreram devido a presença de cianotoxinas na água da clínica utilizada no tratamento do sangue dos pacientes.

Os casos de poluição da água provocada por diferentes ações humanas continuam a se multiplicar ao longo da nossa história, como em 2015 na bacia do Rio Doce, onde o rompimento da Barragem do Fundão, pertencente a mineradora SAMARCO, lançou milhões de litros de lama de rejeito em mais de 800km do rio e seus afluentes, até chegar no mar e se espalhar por mais de 200km do nosso litoral.

Na semana passada estive no município de Mariana onde a tragédia aconteceu e pela primeira vez vi um rio morto. Gualaxo é o seu nome. Em todo o seu percurso até desaguar no Rio Doce não há vida em suas águas. Que tristeza…

Mas infelizmente a mineração não é a única fonte de poluição dos rios da região, a falta de tratamento de esgoto também, como no rio Brumado que tem uma linda cachoeira, atrativo turístico que junto com o artesanato de pedra sabão e tapetes de sisal gera emprego e renda para os moradores de Cachoeira do Brumado, agora com água imprópria para o banho.

Junto com a organização internacional Green Cross, que desenvolve o programa Água para Vida em mais de 30 países, a associação de moradores de Cachoeira do Brumado, o governo municipal de Mariana e outras organizações que atuam na região, vamos implantar as fossas sépticas biodigestoras da EMBRAPA, nas casas dos moradores do município, começando pela Escola Estadual Dona Maparata, onde estudam 600 alunos entre crianças, jovens e adultos.

É um trabalho de formiguinha. Mas temos esperança de que não só os desastres ambientais, mas também iniciativas como essa possam tocar o coração dos brasileiros e na festa de ano novo de 2018 tenhamos mais motivos para celebrar a vida, que só existe porque existe água.

amigos-do-lp-2017

Arte: Patrícia Mezzaroba Scartezini